21.12.06

FRIO

O frio é demais. Entra pelos poros da minha pele e gela meus ossos. Minhas roupas estão molhadas. Meu cabelo está molhado. Minha boca está seca. Não sei mais o que fazer. Caminho lentamente para tentar diminuir o vento que insiste em bater no meu rosto. Já era para eu ter chegado em minha casa, não que lá esteja menos frio mas pelo menos terei roupas secas.

Só eu estou na rua, caminhando, nenhuma casa, nenhum carro, ninguem passa por mim. Faço esse caminho todos os dias e, logo hoje, não consigo identificar onde estou. Saí de casa apenas para comprar algo para comer, caminhei em direção a cidade mas a cidade não apareceu. Resolvi voltar e para minha surpresa minha casa também ainda não apareceu. Estou caminhando há algumas horas e tudo o que eu vejo é escuridão e alguns pontos de luz que aparecem e desaparecem em diferentes espaços de tempo e em diferentes distâncias. Vejo tambem vulto no céu escuro bem acima de mim. Como pássaros. Seguindo sempre para mesma direção. A direção contrária a minha.

Resolvo tirar o meu casaco, ele está pesando demais. Enxarcado de água. Não me pergunte de onde veio essa água, tambem não sei. Simplesmente percebi que estava molhado. Saí de casa seco, isso eu garanto. Meus pés começam a doer. Parece que estou caminhando sobre agulhas. Resolvo parar para descansar um pouco. Sento no chão. Deito. Fechos os olhos. Abro os olhos assustado com o falatório em minha volta. Só barulho. Não enxergo nada. Branco. Então aparecem as bocas que estão falando. Dezenas. Aparecem os olhos, assustados, que me fitam. Não consigo entender nada. Fecho os olhos novamente para tentar sair dali. Nada muda. Não consigo me mexer. Não sinto meu corpo. Apenas olho e escuto. Milagre... ouço. Está vivo... ouço. Uma pessoa está chorando atras de mim, é a unica que chora. Não consigo me virar para ver quem é. Tento falar alguma coisa mas minha boca nem abre. Fecho os olhos. Começa a chover.

18.8.06

A PEDRA

Era uma vez uma pedra. Uma pedra normal. Não era uma pedra preciosa. Também não era uma pedra grande. Desde que se desprendeu de sua pedra-mãe, ela vivia no mesmo lugar. Num jardim abandonado, sem movimento, sem vida.

Mas um dia esse jardim foi vendido e essa pedra foi posta em uma caminhão. No meio do caminho ela caiu e rolou, indo parar num playground movimentado e cheio de crianças. Uma dessas crianças a pegou e arremessou em um passarinho. A pedra tentou avisá-lo mas não teve tempo, com uma batida seca ela o derrubou, quebrando uma de suas asas. Caíram lado a lado, pedra e passarinho.

- Por que você fez isso comigo? - perguntou o passarinho.

A pedra não sabia o que falar. Se sentia culpada mesmo não sendo ela a responsável.

- Me desculpe, passarinho. Fui arremessada por um garoto, não pude fazer nada.

- E agora o que eu faço? Minha asa está quebrada e não consigo caminhar também. Como irei me alimentar?

Realmente, os pés do passarinho estavam muito machucados. A pedra não sabia o que fazer. Tentou gritar por ajuda (as pedras quando querem fazem muito barulho), mas ninguém respondeu.

- Eu não sei o que fazer. Sou apenas uma pedra. Não sei como posso te ajudar. - E chorou. Chorou muito. Ficou dois dias chorando sem parar.

Então algo aconteceu. As lágrimas da pedra começaram a formar limo. O passarinho então começou a se alimentar desse limo. E assim ficaram, pedra e passarinho, enquanto uma chorava o outro se alimentava, se mantinha vivo.

Um certo dia o passarinho, ao acordar, percebeu que sua asa havia curado. Fez um esforço e conseguiu ficar em pé. Mais um esforço e ele alçou võo.

- Obrigado, pedra. Suas lágrimas me deram água e seu limo alimento tempo suficiente para que minha asa se curasse. Agora posso voar e você pode parar de chorar. - e essas foram as ultimas palavras que a pedra ouviu do passarinho.

Mas a pedra não parou. Chorou e chorou e chorou... afinal ela era apenas uma pedra, ficaria ali sozinha até que alguém a arremessasse novamente.

17.8.06

ANJO

Deserto.

Tudo parecia um sonho. Nada fazia sentido. O calor era intenso, vermelha era a paisagem. O que aconteceu?
Lembro-me de estar parado, aguardando minha vez de subir ao palco. Nervoso. Minhas mãos transpiravam, sentia um certo tremor nas pernas. Enfim o anúncio. Havia chegado a hora. Ao subir senti que havia algo errado, as coisa estavam fora de lugar. Insegurança. Nunca fui bom em improvisar.
Deserto.
Meus pés queimam ao pisar na terra vermelha mas mesmo assim continuo andando. Tentando achar algo que indique onde estou. Quanto mais eu caminho mais eu percebo que estou no mesmo lugar. Não há direção. Perdido, não tenho para onde ir. Olho para os lado e... sei onde estou.
Começo a perceber coisas que antes não havia notado. Vejo pessoas caminhando lentamente, cabisbaixas, sem direção, sem objetivo, sem destino. Castigo. Olho pra o alto e suplico por ajuda. Mas como serei ajudado por algo que reneguei minha vida inteira? Como serei ajudado por algo que fingi não acreditar? Sento e, como os outros, abaixo minha cabeça. Não choro. Não tenho mais lágrimas.
Alguma coisa macia toca levemente meu rosto.
Luz.
Dourada. Como um sol que alimenta mil planetas. Branca. Como o mais puro dos pensamentos. O que fazes aqui neste lugar ao qual não pertence? Por que encostas teus pés neste chão? Não importa o que tenhas feito, nada justifica tal castigo. Ela então sorri, e seu sorriso me inunda de sentimentos. Fecho os olhos não suportando tal beleza. Beleza que não sou digno de olhar. Mesmo com olhos fechado a vejo esticar as mãos. Oferecendo-me. Estico meu braço e a toco. Claridade. Não enxergo nada. Mas sinto...
..sinto o mundo sob os meus pés.

DESEJO

Deu tudo errado. Por mais que eu tenha planejado, pensado, simulado, deu tudo errado. Não foi culpa minha, eu não podia imaginar. Cheguei cedo como foi combinado, duas horas de antecedencia. Esperei quatro pra começar a falar. Tudo estava sobre controle. As pessoas me olhavam atentas, eu podia ler o pensamento de cada uma delas. Admiração, inveja, dúvida. Aos poucos a inveja e a dúvida foram sumindo, só restando admiração. Eu já estava acostumado, sabia do meu conhecimento e acreditava na minha capacidade.
Bastou nossos olhares se cruzarem e tudo desmoronou. Fiquei preso na hora. Não me movia, não falava mais, sequer respirava. O tempo parou. Podia sentir as pessoas atonitas sem entender nada, as vozes começando a se embaralhar e se elevar. Quanto tempo fiquei imóvel? 5 segundos? 5 minutos? 5 horas? Reparei que a expressão dela mudou, parecia um sorriso se formando. Ela se levantou calmamente e se retirou. Despertei. Meio tonto aos poucos fui retornando a realidade, as pessoas falando ao mesmo tempo, algumas rindo, outras xingando. A inveja voltou. Foi-se a admiração.
Não pedi desculpas, virei de costas e me retirei. Não ouvia nada, não via nada. Aqueles olhos não saiam da minha cabeça. Resolvi ir procurá-los. Saí do auditório olhando para todos os lados e não a encontrei. Perguntei para as pessoas e ninguem a viu. A sensação que tive foi como se ela não existisse. Sonho? Não. Delírio? Não. Desejo.

DESTINO

Apenas um convite. Aniversário. Um sorriso e eu estava 10 anos mais novo. Tudo mudou, sentimentos que até então estavam enterrados foram aos poucos sendo escavados e redescobertos. Voltando com força ante a possibilidade de serem concretizados. Proibido. Impossível de se resistir. Um olhar, olhos negros como o universo, inexplorados, infinitos. Perigosos. Ignoro os avisos e me lanço sem pensar duas vezes. Me lanço ou sou lançado? Ambos. Quando percebo, estou preso.
Resolvo explorar, tentar desvendar os segredos, vou cada vez mais longe. Não olho para trás nem para frente, simplesmente vou voando. Um brilho. Percebo ser o sol, o centro desse universo. Irradia uma energia pulsante, sem igual. Uma luz que aquece, elouquece. Em pouco tempo fico completamente dependente. Me alimenta e me faz ter forças para seguir em frente, sem planos, entregue. A felicidade toma conta do meu corpo, esqueço que estou preso, me sinto livre, me sinto forte, me sinto crescendo. Ocupando cada vez mais espaço. Mas quando penso ter explorado tudo, percebo que só vi uma fração, pois a cada segundo descubro coisas novas. E novas possibilidades.
E quanto mais eu exploro... mais eu fico preso.
Se acredito em Destino? Claro. Mas ele é cego e nós não.

LUZ

- Cara! Voce não vai acreditar! Eu tava caminhando pra casa após o trabalho quando uma coisa muito estranha aconteceu. Você sabe, tenho a mania de caminhar olhando pro chão, não por timidez ou falta de auto-estima, por mania mesmo. Pois bem, estava eu caminhando quando uma luz me iluminou por cima. Uma luz bem branca, mais branca que qualquer outra coisa que você já viu. Olhei para cima e ví que vinha da Lua. Verdade! Diratemente da Lua! Era um faixo de luz que parecia ser sólido e acabava ali, na minha frente. Não sei o que deu em mim mas resolvi pisar na luz e, pra meu espanto, percebi que dava pra subir por ela! Sério! Olhei pro lado pra ver se tinha alguem vendo tambem mas a rua tava deserta, nem uma viva-alma. Dei o primeiro passo, o segundo e quando percebi já estava numa altura que se eu caisse morreria na hora! Fiquei tonto e resolvi não olhar mais pra baixo. Subi. Subi. Subi. Sempre olhando pra cima. Pude perceber que a luz estava ficando diferente, havia um ponto mais forte, na hora imaginei ser uma porta, mas não era. Caminhei na direção desse ponto e percebi que era uma pessoa, se é que podemos chamar um ser de pura luz de pessoa. Isso mesmo. Tinha as formas de uma pessoa mas era feito de luz! Mal podia olhar pois meus olhos doiam. Cheguei perto e resolvi falar alguma coisa, mal abri a boca e a luz disse: "Seu lugar não é aqui." Não tenho nem como descrever a voz. Parecia vir de todas as direções possíveis. Mais uma vez mal abri a boca e a luz falou: "Aconteceu uma coisa inesperada, que me pegou de surpresa. Definitivamente seu lugar não é aqui." Na hora o chão ficou liso e escorregadio, deslisei até o ponto que tinha começado a subir. Quando cheguei ao chão a luz sumiu! Parecia que nunca tinha existido. Fiquei horas olhando pra cima e não vi nada. Tu acredita numa coisa dessas?
- Não. Eu não acredito.
- Tudo bem. Se não tivesse acontecido comigo eu tambem não acreditaria. Mas uma coisa eu te garanto, desse dia em diante nunca mais caminhei olhando pro chão.

CAMINHADA

Percebi a presença dela quando caminhava para casa. Senti um calafrio e um vulto atras de mim. Via sua sombra caminhando atras da minha. Estava próxima. Fui diminuindo o passo lentamente para que ela me passasse. Não passou, diminuiu os passos tambem. Resolvi seguir em frente normalmente, ignorando sua presença. Caminhei cerca de 5 minutos com ela me seguindo, no mesmo ritmo, na mesma distância. De repente sua sombra foi crescendo, ela estava se aproximando, quando percebi já estava ao meu lado. Olhei. Seu corpo caminhava normalmente para frente mas sua cabeça estava completamente virada na minha direção, me olhava. Seus olhos estavam bem abertos mas pareciam não ter vida, sua boca tinha um sorriso permanente, como uma boneca. Sua expressão estava congelada, nem piscava, nem tremia. Aumentou a velocidade e ficou na minha frente, me encarando e mesmo assim andando normalmente. Agora seu rosto estava completamente virado para as costas. Caminhamos assim uma eternidade, ela na frente virada pra mim e eu atras sem conseguir tirar o olho dos olhos mortos dela. Cheguei na portaria do meu prédio, parei. Ela continuou caminhando e olhando parar mim, até desaparecer, no horizonte.

SONHO

- Pronto. O que você acha? - sorriu.
- Não gostei.
- Por que não gostou? - parou de sorrir
- Não sei. Só sei que não gostei.
- Tem que ter um motivo. Não pode simplesmente não gostar.
- Não achei parecido.
- Então o que faremos agora?
- Posso tentar fazer.
- Você já tentou cinco vezes e todas ficaram piores que a minha.
- É verdade.
- Que tal pedirmos ajuda pra ele?
- Ele não vai ajudar, ta ocupado cuidando dos filhos.
- Mas os filhos nem sabem que ele existe!
- Mesmo assim não deixam de ser filhos.
- E ela? Ela pode nos ajudar.
- Ela está dormindo.
- Podemos esperar ela acordar.
- Bem... da última vez ela dormiu 3 anos seguidos.
- Não sei o que fazer então.
- Podemos dormir, e sonhar. No sonho conseguiremos fazer.
- Você tem razão, nos sonhos tudo é possível.
E eles dormiram. E sonharam. E fizeram.

PENSAMENTOS

Imagina se uma pessoa acordasse com todos os seus pensamentos sendo realizados instantaneamente. Agora imagine se essa pessoa acordasse de mau humor. Quanto tempo o mundo duraria? Segundos? Essa pessoa pensaria em alguma coisa que puxaria outra e mais outra e mais outra. Pensamentos não podem ser aprisionados. O simples fato de pensar em não pensar já é um pensamento. O desespero iria tomar conta dessa pessoa e rapidamente ela iria ficar louca, e a mente de uma pessoa louca é uma mente sem limites. Pensamentos descontrolados. Chefe sumir, esposa morrer, filhos crescerem, filhos morrerem, bancos explodirem, aquele vizinho barulhento ficar surdo, os cachorros que latem sumirem. Dia. Noite. Dia. Noite. Chuva. Sol. Calor. Frio. Calor. Pensamentos sempre extremos. Ninguem conseguiria pensar no meio termo. Nosso pensamento é sempre no extremo, depois lentamente, vamos chegando no ideal, mas aí, talvez já possa ser tarde.

DAMA

Só havia um lugar para sentar no ônibus, e esse lugar era do meu lado. Ela entrou caminhando como uma velha. Mal conseguia sair do lugar, escorando e se agarrando aos ferros. Pagou e passou pela roleta sem olhar para o trocador, seu olhos estavam fixados no assento vazio. Continuei lendo o livro e prestando atenção nela sem que ela percebesse, pelo menos eu pensava isso. Continuou caminhando com dificuldade e se sentou ao meu lado. Respirei fundo tentando sentir seu cheiro, ela não tinha. Reparei na sua pele e a sensação que tive é que era solta da carne, como se tivesse uma camada de ar separando. Continuei lendo o livro, ela não olhava pra mim, não olhava pra lugar algum, como se apesar do seu corpo estar aqui, sua mente não. Uma pessoa desligada, sem pilha. Apesar de sua aparencia ninguem olhava para ela, só eu. Resolvi então me virar e olha-la de frente, me virei rapidamente como quem procurasse alguma coisa do outro lado da rua e encarei-a. Até hoje não consigo descrever seu rosto. Fui tomado por um terror inexplicável. Meu coração parou, meus olhos se fecharam e lentamente fui perdendo a consciencia. Lutei mas não pude impedir.
Estava morto.

MUNDO

Francamente! Quantas vezes vou ter que lhe dizer que o mundo não é como você imagina? Será que é tão dificil de entender ou eu que não estou sabendo explicar? É simples, tudo o que voce vê não passa de ilusão. Fantasias criadas pelo seu cerebro para que permaneça vivo. Sua familia, seus amigos, seus amores. Tudo. Seu mundo é você. Seu mundo é diferente do meu que é diferente do dela que é diferente do dele. Nosso mundo é o que enxergamos ou sentimos. O que tá do lado de fora não passa de ilusão. 


Deus? 


Existe.


É você.