DAMA
Só havia um lugar para sentar no ônibus, e esse lugar era do meu lado. Ela entrou caminhando como uma velha. Mal conseguia sair do lugar, escorando e se agarrando aos ferros. Pagou e passou pela roleta sem olhar para o trocador, seu olhos estavam fixados no assento vazio. Continuei lendo o livro e prestando atenção nela sem que ela percebesse, pelo menos eu pensava isso. Continuou caminhando com dificuldade e se sentou ao meu lado. Respirei fundo tentando sentir seu cheiro, ela não tinha. Reparei na sua pele e a sensação que tive é que era solta da carne, como se tivesse uma camada de ar separando. Continuei lendo o livro, ela não olhava pra mim, não olhava pra lugar algum, como se apesar do seu corpo estar aqui, sua mente não. Uma pessoa desligada, sem pilha. Apesar de sua aparencia ninguem olhava para ela, só eu. Resolvi então me virar e olha-la de frente, me virei rapidamente como quem procurasse alguma coisa do outro lado da rua e encarei-a. Até hoje não consigo descrever seu rosto. Fui tomado por um terror inexplicável. Meu coração parou, meus olhos se fecharam e lentamente fui perdendo a consciencia. Lutei mas não pude impedir.
Estava morto.

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